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quinta-feira, 10 de maio de 2012


"Voltámos para casa anteontem, nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade. 
Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: "Mas quem é o senhor?" 
Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela. 
Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem. 
Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!"

Miguel Esteves Cardoso, in Público, 06.05.12

Ainda ontem conversava sobre isto, sobre o cancro. Não sei se tinha coragem para tratar um cancro. As operações até nem devem ser o pior. A quimioterapia, a injecção de químicos para dentro das minhas veias é que me trama. Não sei se conseguia nem se queria passar os últimos dias da minha vida mal disposta... Espero nunca ter de pensar nisso a sério, mas não sei mesmo se conseguia.

De qualquer forma, ler isto sossega uma dúvida que me acordou justamente esta noite. Acordei de madrugada a pensar que em Setembro vou casar e isso para mim significa assumir um compromisso para a vida. Não é como comprar uma roupa que, por mais cara que seja, podemos deixar de usar de deixarmos de gostar dela. Não é como arranjar um emprego e depois decidir de um dia para o outro que não gostamos daquele emprego.
É assumir que aquela pessoa se torna uma parte de mim, e partes de nós não se cortam levianamente certo?
E depois vejo amor escarrapachado desta forma, por mais do que uma vez, nas páginas de um jornal e fico feliz e tranquila e com mais força para assumir este compromisso.
Só espero que o MEC e a sua Maria João ainda possam passear muito de mãos dadas na rua, até serem bem velhinhos, e que quando um tiver que partir o faça tranquilamente, e que o outro o siga, naturalmente, porque depois é chato e aborrecido e insignificante continuar por cá depois de se perder a pessoa com quem se partilhou a vida.