Ainda não tinha ouvido o discurso da Isabel Jonet, mas do que tinha ouvido falar até me parecia um discurso compreensível para alguém que lida com a fome há décadas.
Através do Banco Alimentar, Isabel Jonet conheceu, com certeza, pessoas com dificuldades desde sempre, que nasceram na pobreza. Agora depara-se, cada vez mais, com pessoas da classe média que de repente ficaram sem nada. Uma classe média que podia ter feito as suas poupanças.
Não concordo quando ela diz que se viveu acima das possibilidades, mas concordo quando ela diz que o consumismo em que se viveu era dispensável.
Eu própria passei uma infância remediada. Então, quando arranjei o meu primeiro emprego de verão gastei o dinheiro todo no que me apeteceu: uma máquina fotográfica, roupa, saídas. Se soubesse o que sei hoje, tinha poupado esse dinheiro.
Já o disse e repito: adoro ir comer fora, adoro massagens, adoro viajar. Desde que as dificuldades começaram reduzi drasticamente estes pequenos prazeres porque tenho de pagar o gasóleo para ir trabalhar, tenho de comprar comida e pagar a casa. Só rezo para manter o meu emprego e poder ter a possibilidade de pagar estas despesas.
Acho que a Jonet tem razão quando fala nos concertos: é claro que ser músico é um trabalho como outro qualquer, mas em Portugal o que esgota são concertos de grandes estrelas internacionais que custam de 60€ para cima e não as salas com concertos a 10 ou 15€ de artistas portugueses.
Esgotam jogos de futebol cujos bilhetes custam de 60€ para cima com equipas como o Barcelona ou o Manchester e não jogos da divisão B que às vezes são de borla.
Não devemos abdicar dos pequenos prazeres de vez em quando, mas há anos que vejo pessoas que recebem o salário mínimo com telemóveis de última geração a comer todos os dias no café e a queixarem-se que o dinheiro não chega ao fim do mês.
Por isso há muitas partes do discurso da Jonet que não me chocam. Regra geral quando nos ofendemos muito com alguma coisa é porque a "carapuça serviu". Acho que há que ver o contexto em que foi dito e talvez interrogarmo-nos sobre as experiências que ela viveu no BA para proferir aquelas declarações.
Já com o Governo a fazer declarações daquele calibre (como já fizeram) não sou tão benevolente porque as ajudas de custo continuam altíssimas, os subsídios para tudo e mais umas botas também, as subvenções aos partidos mantém-se, funcionários incompetentes não são despedidos para dar lugar a pessoas com verdadeira competência para os cargos, os favores ao nível da administração local não acabam, e o Relvas nem quer saber se continuam a dizer que ele comprou a licenciatura e mantém-se como ministro sem ter vergonha nenhuma na cara. Isto é que me dá volta ao estômago e não as declarações da Isabel Jonet!