sexta-feira, 16 de março de 2012

Detesto o trabalho que tenho, mas tenho consciência que na conjuntura é de manter um contrato sem termo, mesmo que nos dê dores de barriga, para um dia poder comprar uma auto-caravana e gozar a reforma (se não morrer antes é claro). Ainda mais do que o meu trabalho, detesto o facto de ter um colega que considera que eu tenho de gostar do meu trabalho. Ele quer interessar-me pelas questões, quer ensinar-me coisas (que eu aprendo, é claro, mas não preciso de me babar de tanta emoção à conta disso), quer valorizar a minha inteligência... Eu já lhe disse directamente que desempenho qualquer tarefa que me solicitem mesmo sem gostar, mas agradeço que lhe retirem os floreados e me perguntem o que é que eu acho. Não quero dar opiniões, não quero pensar sobre os assuntos, quero que me digam que uma tarefa é para fazer e eu faço.
Se estivesse a escrever um livro, a organizar uma exposição, a trabalhar numa associação como esta, a escrever para uma revista de grande informação ou a pesquisar para um programa de grande reportagem, aí eu quereria dar a minha opinião, discutir os assuntos, pensar, sentir o que estava a fazer. Aqui só quero fazer, com a maior eficiência e profissionalismo que me for possível, mas não me obriguem a pensar sobre estes assuntos. Fingir que me interesso por eles vai contra a minha natureza e só me falta fazer um desenho para que esta criatura com quem partilho o escritório perceba isso.

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