Quando cheguei esta manhã à porta do hotel onde a Fly Emirates estava a fazer mais uma sessão de recrutamento vi logo qual era o meu destino. Devia ter seguido o meu instinto inicial de ficar em casa e dormir pelo menos até às 10h como se deve fazer a um Domingo.
Mas ontem à noite, mesmo de véspera, a minha coceirinha por viagens e o desejo de juntar uns trocos para uma reforma tranquila falaram mais alto.
Reuni toda a minha coragem, pensei como seria estar longe de casa mais uma vez. E como seria estar longe do meu marido. Claro que também teria saudades da minha mãe, mas a minha mãe será sempre minha mãe, e um marido, se estamos longe, pode cair na tentação de deixar de o ser.
Fiz planos de como iria arranjar-lhe alguma coisa para ele se juntar a mim.
Tive a certeza que numa entrevista eu seria seleccionada. Adoro viajar, falo inglês fluentemente e francês relativamente bem, não tenho medo de trabalhar, adapto-me bem a outros sítios e culturas... Acho que toda a gente devia poder viajar pelo menos uma vez na vida, até a pessoa mais pobre. Viver sem nunca viajar não é viver, é sobreviver.
Quando cheguei esta manhã à porta do hotel, vi logo qual era o meu destino. Mas insisti em ficar, tinha uma réstia de esperança. A minha cunhada tinha entrado num recrutamento deles por acaso, porque ia a passar à porta donde estava a decorrer a reunião. Não tinha CV, nem maquilhagem. Tinha o cabelo solto, despenteado pelo vento e as calças de ganga da moda... rasgadas! E mesmo assim chamaram-na. A minha cunhada tem 1,70m, pesa uns 54 kg e tem 25 anos.
Eu fui de fato, do alto dos meus 164 cm de altura, pus base, andei à procura de fotos de casamentos para colocar no CV online.
Lá só tive de dizer em que ano conclui a licenciatura e esticar-me para tocar uma marca na parede, para verem se tinha altura suficiente.
Já são 21h57, não ligaram, não fui seleccionada, não vou para o Dubai, não vou ter saudades de morte do meu homem. Também não vou viajar, conhecer milhentos países e ainda ser bem paga para isso.
Quando cheguei esta manhã à porta do hotel vi logo qual era o meu destino. Era voltar para casa, com 2 horas de sono a menos e mais 8 horas de sonhos perdidos, perdidos para garotas de 22 anos com pernas maiores que as minhas, menos mamas que eu, com o batom mais vermelho e com os seus penteados de hospedeiras de bordo que preparam cuidadosamente em casa, como se estivessem prontas para embarcarem já hoje para o seu destino num A380 com bar, camas e chuveiros, a caminho da terra dos shakes.
Estas merdas entristecem-me sobremaneira, não sou material para nobel porque não tenho um cérebro brilhante, não sou material para hospedeira porque não tenho boas pernas ou já sou velha demais ou não ri o suficiente para a recrutadora, sei lá... Não sou material para jornalista (ai nem sei bem porquê).
Fico tramada com isto pá porque convenço-me mais uma vez que vou passar uns bons anos mais agarrada a uma secretária!
Vou ali deprimir-me mais um bocado e volto amanhã!
2 comentários:
Não te deprimas. Há situações que nos transcendem e não temos controle sobre tudo. Talvez haja um lado positivo nisso tudo. Não precisarás de sentir saudades, de estar sozinha num país estrangeiro...
Mas não deixes de sonhar e de tentar. E valoriza tudo o que tens de bom, porque isso não muda com as recusas.
Beijinho e ânimo!
Não deixa de ser chato pensar que aos 29 anos ou somos muito novas para certos cargos ou muito velhas. Afinal, qual é a idade certa?
Não tenho grande medo de estar sozinha fora, já o fiz. Só não suporto mais a repressão às capacidades que se vive. Atualmente é como se estivéssemos a correr numa passadeira: o mundo a passar-nos à frente e nós a corrermos sem sair do lugar!
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