A Isabel Jonet tornou-se um bode expiatório desta crise. Primeiro porque disse que não devíamos comer bifes todos os dias se não pudéssemos, agora porque diz que prefere a caridade à solidariedade.
Quanto à primeira declaração, existe uma coisa que se chama sentido figurado ou, se preferirem, dar exemplos. Ela podia ter dito que não podíamos comprar roupa de marca, ou telemóveis um de cada rede, por exemplo.
Um colega de trabalho exaltou-se logo e diz: ah! esta senhora nunca passou por dificuldades, é uma burguesa. Então as pessoas lá comem bifes todos os dias?
É compreensível, as figuras do discurso não são com ele. Ele é de economia!
Talvez ela devesse ter usado o exemplo dos telemóveis, porque há quem passe sem comer, mas não sem enviar SMS.
Quanto à caridade, para os cristãos, isso é sinónimo de amor. Eu prefiro também que quem necessite seja ajudado por amor (amor por parte do próximo), e não porque seja um direito adquirido. Vamos ver: se os nossos governantes ajudassem por amor ao próximo, por necessidade intrínseca do seu ser mais íntimo e não por ser uma obrigação do Estado para cumprir direitos adquiridos, então o Estado estaria a respeitar muito mais os pobres porque estaria a assegurar o seu bem-estar por amor e não porque há uns seres que têm direitos e fazer-lhes bem é garantir votos!
A Isabel Jonet pode nunca ter passado fome (eu também não), pode ser burguesa, mas está a perder-se tempo a discutir o sexo dos anjos.
Ela está numa instituição que tem, neste momento, um papel efectivo no combate à pobreza. O Banco Alimentar fornece comida às pessoas através das paróquias, da Cruz Vermelha, das IPSS. Estas instituições procuram, tanto quanto lhes é possível, verificar no terreno (porque são instituições de proximidade), se as pessoas têm mesmo necessidade de ajuda alimentar ou se estão a mentir (também acontece). A solidariedade do Estado dá subsídios a pessoas que mentem no IRS e nem se preocupa em verificar a veracidade das declarações, dando a quem já tem e deixando à mingua quem não tem.
E mais, a solidariedade do Estado dá-se ao luxo de conceder isenções iguais a reformados que recebem 3 mil euros/mês e a reformados que recebem 300€.
A solidariedade do Estado isenta, por exemplo, uma pessoa com uma deficiência física superior a 60% de impostos, mesmo que ela ganhe 2.000€ líquidos por mês num emprego de secretária onde a sua deficiência em nada lhe retira capacidades e muito pouco lhe retira em qualidade de vida (ok, dá-lhe umas dores nas costas e não pode correr, mas dores nas costas e nos joelhos também eu tenho há anos e não tenho isenção de impostos), e cobra impostos brutais a pessoas que trabalham de sol a sol por 500€.
Não gosto do meu Estado, não gosto da sua solidariedade. Prefiro a caridade de um vizinho que me ajuda pelo carinho que me tem do que o Estado que diz que tenho de pagar, justamente, o Estado que quero ter (e caramba, não estou a pagar o Estado que quero ter). Se calhar, depois de anos a pagar os meus impostos, se agora me visse em dificuldades e tivesse de pedir ajuda ao Estado ainda tinha que dizer: muito obrigada senhores governantes, muito obrigada pela vossa esmola. Aos meus vizinhos, aos caridosos diria: obrigada pela vossa amizade e ajuda, Deus vos guarde!
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